Neste Setembro Amarelo, entenda como reconhecer sinais de alerta, oferecer uma escuta sem julgamentos e orientar para a busca de ajuda pode contribuir para a prevenção do suicídio.
Nem sempre é fácil perceber quando alguém está passando por um momento difícil. Algumas mudanças podem ser sutis: uma pessoa que antes gostava de estar rodeada de amigos começa a se isolar, perde o interesse por atividades que faziam parte da sua rotina ou demonstra um sofrimento que parece não passar. Em outros casos, os sinais podem aparecer em falas sobre morte, desaparecimento, falta de esperança ou sobre não encontrar motivos para continuar.
Os sinais precisam ser observados dentro do contexto de cada pessoa. Isoladamente, eles não confirmam o risco de suicídio, mas devem ser levados a sério. Ainda assim, perceber mudanças e não ignorá-las pode ser um primeiro passo importante para oferecer apoio.
É justamente esse o convite do Setembro Amarelo: perceber, acolher e orientar.
Perceber: estar atento também é uma forma de cuidado
Prestar atenção significa reconhecer que mudanças importantes de comportamento ou falas que demonstram sofrimento merecem acolhimento e avaliação.
Uma pessoa pode estar enfrentando dificuldades emocionais mesmo quando, por fora, parece estar bem. Como explica a Dra. Christianne Furtado, médica do trabalho, o sofrimento emocional nem sempre é visível:
“A pessoa pode estar enfrentando ansiedade, depressão, perdas, conflitos ou uma sensação de não conseguir mais lidar com a própria vida, mas continua trabalhando e agindo sem demonstrar claramente seu sofrimento, convivendo socialmente e aparentando que está tudo bem.”
Por isso, uma pergunta simples pode abrir espaço para uma conversa que estava sendo adiada: “Como você está de verdade?”.
Entre os sinais que merecem atenção estão alterações importantes de comportamento ou humor, isolamento, tristeza ou desesperança, perda de interesse pelas atividades do dia a dia, alterações no sono ou no apetite e aumento do uso de álcool ou outras drogas. Falas sobre querer morrer ou não ter motivos para viver, também precisam ser levadas a sério.
Segundo Sócrates Schwartz, Gestor do Escritório de Qualidade do Hospital Icaraí, esses sinais podem ajudar familiares, colegas de trabalho e pessoas próximas a identificar uma situação de risco mais precocemente.
Acolher: ouvir sem julgamentos
Quando alguém decide falar sobre aquilo que está sentindo, a primeira atitude não precisa ser encontrar uma solução. Muitas vezes, o mais importante naquele momento é escutar.
Acolher é permitir que a pessoa fale sem minimizar sua dor, fazer comparações ou oferecer respostas prontas. Em uma conversa sobre sofrimento emocional, demonstrar presença pode fazer diferença. Perguntar “Como posso te apoiar neste momento?” ou simplesmente dizer “Estou aqui para te ouvir” pode ajudar a pessoa a perceber que não precisa enfrentar tudo sozinha.
A Dra. Christianne destaca justamente a importância de criar espaços seguros para que esse sofrimento possa ser compartilhado:
“Criar espaços de escuta significa oferecer um ambiente seguro, onde a pessoa possa falar sobre o que está sentindo sem medo de julgamento ou de ser desvalorizada.”
Esse cuidado também é importante no ambiente de trabalho, onde as pessoas passam uma parte significativa da vida. Segundo a médica, o serviço de saúde ocupacional pode representar um espaço de acolhimento:
“Dentro do serviço de saúde ocupacional e, mais precisamente, no consultório do médico do trabalho, temos um ambiente neutro, onde prevalecem a ética profissional e o sigilo e onde o trabalhador em sofrimento pode expressar sua angústia sem medo de exposição ou crítica.”
Orientar: ajudar também é aproximar do cuidado
Escutar e oferecer apoio são atitudes importantes, mas não substituem o acompanhamento de profissionais de saúde. Quando o sofrimento é intenso, persistente ou existe uma situação de risco, é fundamental buscar ajuda especializada. Psicólogos, psiquiatras e equipes das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) podem auxiliar nessa busca por cuidado.
Se houver risco iminente, a pessoa não deve ser deixada sozinha. É importante acionar um serviço de emergência, como o SAMU, pelo número 192, ou procurar uma unidade de pronto atendimento ou um pronto-socorro.
Para o apoio emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida), pelo número 188, que oferece atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas por dia. Esse apoio não substitui o atendimento de emergência quando há risco imediato à vida.
Vale destacar que orientar não significa ter todas as respostas: significa ajudar a encontrar o caminho para que a pessoa receba o cuidado adequado. Quando possível, oferecer companhia para buscar atendimento pode facilitar esse primeiro passo.
No ambiente hospitalar, esse cuidado também envolve protocolos específicos para situações de risco. Sócrates explica que o protocolo de prevenção ao suicídio do Hospital Icaraí tem como objetivo atuar de forma estruturada diante desses casos:
“O protocolo busca identificar precocemente o risco de suicídio, avaliar sua gravidade e implementar medidas preventivas de segurança, com acolhimento e acompanhamento da equipe multiprofissional.”
Quando o sofrimento pede acompanhamento profissional?
Passar por momentos difíceis faz parte da vida. Tristeza e desânimo podem surgir diante de perdas, conflitos ou situações de grande impacto emocional. O ponto de atenção está quando esse sofrimento persiste, se intensifica ou começa a interferir na vida cotidiana.
De acordo com a Dra. Christianne, o sinal de alerta aparece quando:
“O sofrimento persiste, se intensifica ou começa a interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos e na vontade de viver.”
Mudanças importantes de comportamento, isolamento e perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer também merecem atenção. Não é necessário esperar que o sofrimento se agrave para procurar ajuda. Buscar acompanhamento profissional não significa que a pessoa falhou em lidar com determinada situação. Reconhecer a necessidade de apoio é uma forma de cuidado.
Prevenção também acontece nas pequenas atitudes
Falar sobre prevenção do suicídio é entender que saúde também envolve aquilo que sentimos e que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
Para a Dra. Christianne, essa mensagem precisa chegar especialmente a quem ainda sente vergonha ou dificuldade de procurar apoio:
“Você não precisa passar por isso sozinho. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de coragem e de autocuidado.”
A médica reforça ainda que o sofrimento não precisa definir o futuro de ninguém:
“Converse com alguém em quem confia e procure ajuda profissional. O sofrimento não pode e nem deve definir a sua vida. Existe tratamento, existe acolhimento e existe caminho.”
Neste Setembro Amarelo, o Hospital Icaraí reforça um convite que pode começar em qualquer lugar: perceba quem está ao seu redor, acolha sem julgamentos e, quando necessário, ajude a buscar o cuidado adequado. O primeiro passo pode ser estar presente e ajudar alguém a não enfrentar esse momento sozinho. Esse cuidado deve continuar ao longo de todo o ano.
Perceber. Acolher. Orientar.
Hospital Icaraí | 15 anos
Sempre por perto. Sempre por você.

